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Quando o “já tentamos” vira dogma
Como uma empresa centenária preserva sua identidade sem perder a capacidade de inovar · 27 min
Mílton Jung, com Denis Peres, CEO da Nadir
No Mundo Corporativo, Mílton Jung recebe Denis Peres, CEO da Nadir, a fabricante do copo americano. A empresa fez 114 anos em agosto, começou consertando máquinas de datilografia e, desde 2019, tem um fundo americano como principal acionista. A pergunta é a de toda empresa antiga: como mudar sem deixar de ser quem você é?
“O primeiro ponto é realmente honrar e entender quais são as fortalezas que a empresa sempre teve. Então, entender esse DNA, porque uma empresa de 100 anos … eu não diria petulante, é um pouco ingênuo achar que você consegue fazer uma transformação completa da companhia e nem precisa. … E com base nisso é fazer também um olhar para o futuro de forma muito honesta e entender o que falta.” — Denis Peres
São duas tarefas, não uma: descobrir quais fortalezas ainda funcionam e olhar com honestidade para o que falta. Quem pula a primeira quer demolir tudo. Quem pula a segunda vira museu. O copo americano, com mais de 7 bilhões vendidos, não foi aposentado: virou uma família de produtos. Mas Denis admite que a história às vezes endurece em dogma, o “isso já foi feito e não funciona”. O exemplo dele: o consumidor usa cada vez mais potes para levar marmita, e a Nadir, dona da Marinex, não tinha uma linha robusta deles.
“E ao analisar o porquê que a gente não tinha, a gente caía em alguns dilemas e talvez alguns dogmas. Ah, isso não, porque tem uma dificuldade operacional, tem uma dificuldade para conseguir chegar no custo ou no preço correto do consumidor. E já tentamos e tal, só que com a insistência de: mas já tentamos? A gente já explorou todas possibilidades de verdade? E ao fazer esse exercício de forma um pouco mais, eu diria, detalhada, a gente conseguiu de fato encontrar caminhos e a gente lançou no ano passado uma linha nova, muito interessante de potes e que já está sendo um sucesso de venda nesse ano.” — Denis Peres
O que destravou a linha foi refazer a pergunta. “Já tentamos” soa como fato, mas muitas vezes é só memória. Denis juntou parte de quem tinha participado da discussão no passado com gente nova, “para fazer as provocações necessárias”. Quem viveu a tentativa sabe por que deu errado. Quem chega pergunta se ainda daria errado. Precisa dos dois.
“A maior lição de todas que eu tive: garantir que eu tenho humildade suficiente. Como eu mudei muitas vezes de indústria e de mercados, a minha bagagem, as minhas experiências, eu não podia simplesmente pegar a mesma experiência e aplicar num novo contexto. Eu tinha que ter a humildade para entender de fato o que eu estava fazendo, onde eu estava, qual era o novo contexto. Eu acho que isso é algo que pode parecer trivial, mas não é.” — Denis Peres
É o mesmo músculo, na carreira de quem morou 12 anos fora, entre Europa, Estados Unidos e Xangai. E é o que ele cobra na expansão da Nadir, que levou a exportação de 8% para 20% da receita em cinco anos: o que funciona no Brasil ou na Colômbia, onde estão as fábricas, não se copia automaticamente em outros mercados.
No Como Você Fez Isso?, Caio Carneiro diz que o sucesso não pode virar desculpa para parar de inovar. A Nadir mostra que a história também não pode. Denis só avisa contra o excesso oposto: filosofar demais atrás do plano perfeito, em vez de executar o simples e aprender rápido. O passado é um bom conselheiro. Só não pode ter a palavra final.
“O consumidor é muito eficiente e inteligente. Ele entende quando não tem autenticidade no que você está falando.”
Para pensar. Qual “já tentamos” da sua empresa foi decidido num contexto que já mudou? E quem você chamaria para reabrir a conversa?
Vale ouvir se quer ver como uma empresa centenária equilibra tradição, dados do consumidor e expansão internacional.